Crédito consolidado: quando junta as dívidas e quando sai mais caro
Crédito consolidado com contas: porque a prestação desce e o total sobe, TAEG máxima no 4.º trimestre de 2026, comissões, hipoteca, PARI e PERSI.
Valores verificados a 8 de outubro de 2026. Taxas e regras mudam: antes de decidir, confirma a ficha de informação (FIN) do banco e o Portal do Cliente Bancário.
O crédito consolidado junta vários créditos numa só prestação. A prestação desce sobretudo porque o prazo fica mais longo, e por isso o total que pagas pode subir. Compensa quando a TAEG nova é bem mais baixa e não esticas o prazo, ou quando continuas a pagar perto do que pagavas antes.
Atualizado a 8 de outubro de 2026 · Leitura: 8 minutos · Por Academia das Finanças
Resumo rápido
- Prestação vs. total: no exemplo abaixo, a prestação desce de 467 € para 328 €, mas o total pago sobe cerca de 2.000 €.
- TAEG máxima no 4.º trimestre de 2026: 15,0% nos créditos pessoais, onde entra o consolidado; 18,5% nos cartões de crédito.
- Reembolso antecipado dos créditos antigos: comissão de até 0,5% do capital (se faltar mais de um ano) ou 0,25% (se faltar um ano ou menos); zero em taxa variável.
- Prazo e taxa de esforço: crédito pessoal até 7 anos, por regra; prestações de todos os créditos até 45% do rendimento líquido.
- Com hipoteca: a prestação pode descer muito, mas a casa fica como garantia.
- Em dificuldades: existem o PARI, o PERSI e a Rede de Apoio ao Cliente Bancário, gratuita.
O que é um crédito consolidado
É um crédito novo que serve para pagar créditos antigos: cartões, créditos pessoais, crédito automóvel. Em vez de três ou quatro prestações, ficas com uma.
Há duas formas:
- Sem hipoteca: é um crédito pessoal. O Banco de Portugal inclui-o na categoria “outros créditos pessoais”, com TAEG máxima de 15,0% no 4.º trimestre de 2026.
- Com hipoteca: a casa fica como garantia. A TAEG costuma ser mais baixa e o prazo muito mais longo.
Se ainda não dominas a diferença entre TAN, TAEG e MTIC, lê primeiro o guia para comparar créditos. Para perceber como se lê uma simulação, vê como simular um crédito pessoal.
Porque a prestação desce e o total sobe: exemplo com números
Exemplo hipotético: o Rui tem três dívidas, todas a prestações fixas. Para simplificar, usamos a TAEG como taxa de cada crédito.
| Crédito | Dívida | TAEG | Prazo que falta | Prestação | Total a pagar |
|---|---|---|---|---|---|
| Cartão de crédito | 3.000 € | 18% | 3 anos | 106,46 € | 3.832,57 € |
| Crédito pessoal | 8.000 € | 12% | 5 anos | 175,49 € | 10.529,13 € |
| Crédito automóvel | 9.000 € | 9% | 5 anos | 185,29 € | 11.117,69 € |
| Total atual | 20.000 € | 467,24 € | 25.479,40 € | ||
| Consolidado a 7 anos | 20.000 € | 10% | 7 anos | 327,59 € | 27.517,26 € |
| Consolidado a 10 anos | 20.000 € | 10% | 10 anos | 259,55 € | 31.146,11 € |
Passo a passo:
- Hoje o Rui paga 467,24 € por mês e, até ao fim, 25.479,40 €.
- Consolidado a 7 anos, paga 327,59 € por mês: menos 139,65 €. Mas o total sobe para 27.517,26 €, mais 2.037,86 €.
- A 10 anos, a prestação cai para 259,55 €, mas o total chega a 31.146,11 €, mais 5.666,71 € do que hoje.
- Repara: daqui a 3 anos o cartão acabava e a prestação atual já descia para 360,78 €, sem consolidar nada.
A taxa de 10% é mais baixa do que a média das três dívidas. Mesmo assim, o total sobe, porque passas a pagar juros durante mais anos.
Como fazer a consolidação jogar a teu favor
Se o Rui consolidar a 10% e continuar a pagar 467,24 € por mês, acaba em cerca de 53 meses e paga perto de 24.560 €. São cerca de 900 € a menos do que hoje. A poupança vem da taxa mais baixa, não do prazo.
Nota: um prazo de 10 anos não é o normal no crédito pessoal. A regra do Banco de Portugal é 7 anos, salvo exceções (como educação, saúde ou energias renováveis) e renegociações para evitar incumprimento.
Os limites da lei: TAEG máxima, prazo e taxa de esforço
O Banco de Portugal fixa todos os trimestres a TAEG máxima para novos contratos de crédito aos consumidores. Parte da TAEG média do trimestre anterior, acrescida de um quarto.
| Tipo de crédito | TAEG máxima no 4.º trimestre de 2026 |
|---|---|
| Outros créditos pessoais (inclui consolidado, lar, obras) | 15,0% |
| Crédito pessoal para educação, saúde, transição energética | 8,2% |
| Crédito automóvel com reserva de propriedade: novos / usados | 11,2% / 14,3% |
| Crédito automóvel em locação financeira ou ALD: novos / usados | 5,4% / 6,7% |
| Cartões de crédito, linhas de crédito e descobertos | 18,5% |
Por isso o exemplo usa 18% no cartão: um cartão novo com TAEG de 20% passaria o máximo atual.
Há ainda dois limites para novos créditos. O crédito pessoal não deve passar de 7 anos (10 anos em finalidades como educação, saúde ou energias renováveis). E a soma das prestações de todos os teus créditos não deve passar de 45% do rendimento líquido. Estes limites não se aplicam a contratos feitos para prevenir ou regularizar incumprimento.
No exemplo, com 1.500 € líquidos por mês, o Rui tem hoje uma taxa de esforço de 31,1% (467,24 ÷ 1.500). Consolidado a 7 anos, desce para 21,8%. Calcula a tua na calculadora de taxa de esforço.
Custos que tens de pôr na conta
- Comissão de reembolso antecipado: nos créditos aos consumidores a taxa fixa, até 0,5% do capital reembolsado se faltar mais de um ano, ou 0,25% se faltar um ano ou menos. Não pode passar dos juros que pagarias até ao fim do período de taxa fixa. Em taxa variável e nos descobertos, não há comissão.
- Pré-aviso: tens de avisar o credor com 30 dias de antecedência, por escrito ou noutro suporte duradouro.
- Imposto do Selo: 0,6% sobre o capital de um crédito com prazo de 5 ou mais anos.
- Comissões do crédito novo: abertura, processamento, seguros. Entram na TAEG, por isso compara pela TAEG e pelo MTIC.
No exemplo, se o crédito pessoal e o automóvel forem a taxa fixa, a comissão pode chegar a 40 € (0,5% de 8.000 €) mais 45 € (0,5% de 9.000 €). O Imposto do Selo sobre 20.000 € a 7 anos é 120 €.
Consolidar com hipoteca: prestação mais baixa, risco mais alto
Com a casa como garantia, o banco pode dar um prazo longo e uma TAEG mais baixa. A prestação desce muito, mas o total pode disparar.
Exemplo hipotético: os mesmos 20.000 € com uma TAEG de 5% a 30 anos dão 106,01 € por mês. No fim, o Rui teria pago 38.163,97 €, quase 12.700 € mais do que hoje.
O risco também muda. Uma dívida de cartão passa a estar ligada à tua casa. Se deixares de pagar, o banco pode executar a hipoteca. Há ainda custos de avaliação, registos e escritura.
Sinais de alerta
- Intermediário sem registo: confirma o nome na lista de intermediários de crédito do Portal do Cliente Bancário.
- Pedidos de dinheiro “para tratar do processo”: os intermediários vinculados não podem cobrar ao cliente. Os intermediários não podem receber nem entregar valores ligados ao contrato de crédito. A única exceção é a remuneração de um intermediário não vinculado, com preço escrito no contrato de intermediação.
- TAEG acima do máximo legal: 15,0% no crédito pessoal neste trimestre.
- Promessas de aprovação certa ou pressão para assinar no próprio dia.
Atenção: desconfia de quem promete “limpar o teu nome no Banco de Portugal”. A Central de Responsabilidades de Crédito não é uma lista negra: regista todos os créditos acima de 50 €, pagos em dia ou não. Só a instituição que comunicou os dados pode corrigi-los. Podes ver o teu mapa de responsabilidades de graça no site do Banco de Portugal.
Alternativas antes de consolidar
- Renegociar com o teu banco: podes pedir alterações ao contrato a qualquer momento. A renegociação depende de acordo, e o banco não pode cobrar comissão por renegociar.
- Atacar primeiro a dívida mais cara: no exemplo, o cartão a 18%. Cada euro extra ali poupa mais juros.
- Criar folga: um fundo de emergência, mesmo pequeno, evita voltar ao cartão no próximo imprevisto.
- Se o rendimento é baixo: vê o que muda na análise do banco em crédito pessoal com salário baixo.
Se já estás com dificuldades: PARI, PERSI e RACE
PARI (Plano de Ação para o Risco de Incumprimento): o banco tem de detetar sinais de risco, como desemprego ou perda de rendimento. Se confirmar o risco, tem 15 dias, depois de receber a tua informação, para propor soluções: mais prazo, carência, consolidação ou refinanciamento.
PERSI (Procedimento Extrajudicial de Regularização de Situações de Incumprimento): se falhares prestações, o banco tem de te integrar até ao 60.º dia de atraso, ou logo que o peças. Durante o PERSI, não pode resolver o contrato, avançar para tribunal nem vender o crédito a terceiros.
Nestes casos, o banco não pode cobrar comissões por renegociar ou consolidar, nem subir a taxa de juro contratada. Pode passar-te custos de terceiros, como registos ou impostos.
RACE (Rede de Apoio ao Cliente Bancário): entidades que dão informação e apoio gratuito a quem está em risco de incumprimento ou já tem prestações em atraso. A lista está no Portal do Cliente Bancário.
Perguntas frequentes
Consolidar créditos baixa a minha taxa de esforço?
Sim, porque a prestação desce. No exemplo, passa de 31,1% para 21,8%. Mas o total pago pode subir, sobretudo se o prazo aumentar.
Qual é a TAEG máxima de um crédito consolidado?
Sem hipoteca, entra nos “outros créditos pessoais”: 15,0% no 4.º trimestre de 2026. O valor é revisto todos os trimestres.
Posso continuar a usar o cartão depois de consolidar?
Podes, mas é o caminho mais rápido para voltar a ter duas dívidas. Reduz o limite ou cancela o cartão. O limite por usar também aparece na Central de Responsabilidades de Crédito.
Consolidar apaga o meu historial no Banco de Portugal?
Não. Os créditos antigos ficam liquidados e o novo crédito passa a ser comunicado à Central de Responsabilidades de Crédito.
O banco pode cobrar comissão por consolidar se eu estiver em dificuldades?
Em PARI ou PERSI, não pode cobrar comissões por renegociar, refinanciar ou consolidar. Só pode passar custos de terceiros, com comprovativo.
Fontes: Portal do Cliente Bancário – Taxas máximas no crédito aos consumidores (4.º trimestre de 2026), Portal do Cliente Bancário – Taxas máximas no 3.º trimestre de 2026 (método de cálculo), Portal do Cliente Bancário – Renegociar ou reembolsar antecipadamente, Portal do Cliente Bancário – Avaliação da solvabilidade, Portal do Cliente Bancário – Gestão do incumprimento, Portal do Cliente Bancário – Novas regras na prevenção e gestão do incumprimento, Portal do Cliente Bancário – Rede de Apoio ao Cliente Bancário, Portal do Cliente Bancário – Responsabilidades de crédito, Portal do Cliente Bancário – A Central de Responsabilidades de Crédito é uma lista negra?, Banco de Portugal – Brochura O regime dos intermediários de crédito. Consultadas a 8 de outubro de 2026. Informação educativa, não é aconselhamento financeiro.