Briefing da Semana #006 — Trump em Pequim, Powell sai do Fed, inflação dispara (11-17 Maio)
Trump visita Xi sem grandes acordos, Powell deixa a Reserva Federal após 8 anos e a inflação em Portugal dispara para 3,3%. Tudo o que importou de 11 a 17 de maio.
Esta foi a semana em que Donald Trump aterrou em Pequim para o seu primeiro encontro com Xi Jinping desde 2017, em que Jerome Powell deixou a presidência da Reserva Federal após oito anos e em que a inflação portuguesa disparou para 3,3% — o nível mais alto desde setembro de 2023. Três acontecimentos que, em conjunto, ajudam a perceber porque é que os mercados fecharam a semana em alta mas com sexta-feira em queda forte.
Aqui fica o resumo do que importa saber sobre a semana de 11 a 17 de maio.
📊 Mercados em Números
A semana começou bem para Wall Street. Na segunda-feira o S&P 500 fechou em novo máximo histórico, na quarta-feira o Dow Jones reconquistou os 50.000 pontos pela primeira vez desde fevereiro e na quinta-feira o Nasdaq fechou em recorde acima dos 26.600. Mas a sexta-feira virou tudo.
Com o petróleo a subir, os juros das obrigações americanas a 10 anos no nível mais alto desde meados de 2025 e a confirmação de que os cortes de juros não chegam este ano, os investidores realizaram lucros nas tecnológicas. Resultado:
- S&P 500: 7.408 pontos (-1,24% na sexta, +0,3% na semana)
- Nasdaq: 26.225 pontos (-1,54% na sexta, +0,3% na semana)
- Dow Jones: 49.526 pontos (-1,07% na sexta, -0,05% na semana)
- Russell 2000: -2,44% na sexta (pior dia em mais de seis meses)
- Brent: $109,26 (+3,35% só na sexta)
- Ouro: $4.561 (-2,63% na sexta)
- Bitcoin: ~$78.200 (-1% na semana)
- Euribor 6 meses: 2,562% (a referência mais usada em Portugal)
O destaque da semana foi a estreia da Cerebras Systems no Nasdaq na quinta-feira: a fabricante de chips de IA subiu 68% no primeiro dia, fechando avaliada em cerca de 95 mil milhões de dólares. Na sexta caiu 10%, num sinal claro do estado emocional do mercado.
🇨🇳 Trump em Pequim: o encontro que não mudou nada (e isso é a notícia)
De 13 a 15 de maio, Donald Trump fez a sua segunda visita de estado à China — a primeira em quase nove anos. Foi recebido por Xi Jinping no Grande Salão do Povo, fez questão de levar uma comitiva de pesos pesados (Tim Cook da Apple, Elon Musk da Tesla, Jensen Huang da Nvidia, entre 16 executivos no total) e regressou a casa sem nenhum acordo significativo anunciado.
Houve duas notícias concretas. Primeiro: a China comprometeu-se a comprar 200 aviões Boeing, com a possibilidade de subir até 750 — bem abaixo da encomenda de 500 aviões e 77 mil milhões de dólares que muitos analistas esperavam. As ações da Boeing caíram quase 4% na quinta-feira após o anúncio e voltaram a cair 3% na sexta. Segundo: ambos os lados concordaram que o Estreito de Ormuz deve permanecer aberto, com Xi a manifestar oposição à militarização do estreito e interesse em comprar mais petróleo americano para reduzir a dependência do petróleo iraniano.
Em cima da mesa estiveram também o fentanil, o acesso a terras-raras chinesas, as compras agrícolas americanas e — o ponto mais sensível — Taiwan. Trump disse à Fox que Taiwan foi “a questão mais importante” para Xi e que gostaria que a situação “permanecesse como está”. O ministro dos Negócios Estrangeiros chinês interpretou as palavras como sinal de que os EUA “compreendem a posição da China” e “não apoiam nem aceitam que Taiwan caminhe para a independência”.
Xi visitará a Casa Branca a 24 de setembro. Para Wall Street, ficou a sensação de que o encontro foi mais um exercício diplomático do que uma viragem económica concreta.
🏦 Powell saiu, Warsh entrou: nova era na Reserva Federal
Foi o evento mais importante da semana para quem investe — e o que talvez tenha passado mais despercebido ao público em geral.
Na quarta-feira, dia 13, o Senado dos EUA confirmou Kevin Warsh como 17.º presidente da Reserva Federal por 54-45 votos — a margem mais apertada de sempre no processo atual. Na sexta-feira, dia 15, o mandato de oito anos de Jerome Powell chegou ao fim.
Quem é Warsh? Tem 55 anos, foi governador da Fed entre 2006 e 2011 (ajudou a coordenar a venda do Bear Stearns ao JPMorgan e estava na sala quando o Lehman Brothers caiu), foi conselheiro da transição de Trump em 2024 e é descrito como um hawk — alguém que dá prioridade ao combate à inflação acima de quase tudo. Curiosamente, declarou também mais de 100 milhões de dólares em criptomoedas pessoais e é o primeiro presidente da Fed a entrar para o cargo com investimentos prévios em ativos digitais.
O problema é o timing. Warsh assume o cargo com:
- CPI americano em 3,8%, bem acima dos 2% que a Fed tem como meta
- Preços no produtor a subir 6% em abril (dados divulgados esta semana)
- Petróleo acima de $100 a empurrar a inflação para cima
- Mercado a precificar zero cortes de juros em 2026 e até a colocar uma probabilidade de 20-30% de uma subida de juros nos próximos meses
Trump nomeou Warsh precisamente porque queria juros mais baixos. Mas a realidade económica que Warsh herda não permite essa luxúria — pelo menos não já. A pressão política sobre o novo presidente da Fed vai ser enorme. Powell, por sua vez, mantém-se como governador da Fed até 2028, o que pode criar tensão dentro da própria instituição.
Detalhe simbólico: nas últimas três transições da presidência da Fed (Yellen em 2013, Powell em 2017, Powell renomeado em 2021), o Bitcoin caiu em média 82% nos meses seguintes. O padrão histórico não é animador.
🇵🇹 Portugal em Foco
Inflação em Portugal dispara para 3,3% — o mais alto em quase três anos
O INE confirmou esta semana o número que muita gente já tinha sentido na carteira: em abril, a inflação em Portugal foi de 3,3%, ligeiramente abaixo da estimativa inicial de 3,4% mas ainda assim o nível mais alto desde setembro de 2023. Em março tínhamos estado em 2,7%. A subida de 0,6 pontos percentuais num único mês é das mais bruscas dos últimos anos.
O que está por trás? A energia, sobretudo. Os preços energéticos subiram 11,7% face a abril de 2025, com a guerra no Irão e o bloqueio do Estreito de Ormuz a fazerem efeito. Os alimentos não processados também aceleraram — passaram de 6,4% para 7,5%. Os serviços, em sentido contrário, desaceleraram ligeiramente, de 3,4% para 3,2%.
Em termos mensais, os preços subiram 1,3% só em abril — depois de já terem subido 2% em março. Quando a inflação acelera assim em dois meses consecutivos, é sinal de que o choque energético está a passar para o resto da economia.
Salário médio sobe para 1.611 euros (mas a inflação leva quase metade)
Também esta semana, o INE divulgou que a remuneração bruta mensal média em Portugal chegou aos 1.611 euros no primeiro trimestre de 2026 — uma subida de 5% face ao mesmo período de 2025. Em termos reais, descontando a inflação, o aumento foi de 2,7%.
A remuneração base ficou em 1.335 euros e a regular em 1.428 euros (ambas com subida homóloga de 5,1%). Os dados abrangem 4,8 milhões de postos de trabalho, mais 1,9% do que há um ano. Os maiores aumentos salariais aconteceram na agricultura, florestas e pesca, seguidos das empresas de alta tecnologia industrial.
É boa notícia? Sim, mas com asterisco gigante. Estamos a ganhar mais — só que tudo o resto também ficou mais caro. O ganho real de 2,7% deixa pouca folga quando a inflação está em 3,3% e a habitação a subir 10,8% por ano.
Casas: mais um recorde, mais um aviso
Segundo o índice do idealista divulgado este mês, os preços das casas à venda em Portugal subiram 10,8% em abril face a abril de 2025, atingindo novo máximo histórico. Em 15 das 16 capitais analisadas houve subidas, com 11 cidades a apresentarem aumentos de dois dígitos. Santarém (+25,4%), Viseu (+24,3%) e Beja (+23%) lideram. Lisboa mantém-se como a cidade mais cara, com preço mediano de 6.109 €/m².
Para enquadrar: dados do Eurostat divulgados em abril mostram que os preços das casas em Portugal triplicaram entre 2015 e 2025 — uma valorização acumulada de 180% em dez anos. No último trimestre de 2025, Portugal registou a segunda maior subida anual de preços de habitação da União Europeia (+18,9%), só ultrapassado pela Hungria.
TAP: a corrida final entre Air France-KLM e Lufthansa
A privatização da TAP entrou na reta decisiva. Air France-KLM e Lufthansa têm até 31 de julho para apresentar as propostas vinculativas para a compra de 44,9% da companhia (mais 5% reservados aos trabalhadores). O IAG, dono da Iberia e British Airways, desistiu há semanas alegando que só lhe interessava a posição maioritária.
O Governo já avisou: como as propostas industriais são “muito equivalentes”, o critério decisivo será o preço oferecido. A operação só ficará fechada já em 2027, depois das autorizações regulatórias de Bruxelas. Atenção ao impacto colateral: a guerra no Médio Oriente disparou o preço do jet fuel (combustível de aviação), o que está a apertar todas as companhias aéreas europeias.
Combustíveis vão descer (um bocadinho)
Boa notícia para esta segunda-feira (dia 18): o gasóleo simples deverá descer cerca de 1,5 cêntimos, ficando em torno dos 1,944 €/litro. A gasolina sobe ligeiramente — e volta a ficar mais cara que o gasóleo pela primeira vez desde o início de março. O Governo reduziu ligeiramente o desconto extraordinário do ISP, dado que os mercados internacionais aliviaram esta semana.
₿ Radar Crypto
O Bitcoin teve uma semana de duas metades. Abriu a semana em $79.490, subiu até aos $82.000 na segunda-feira (a quinta tentativa este mês de furar a média móvel de 200 dias nos $82.228, e a quinta a falhar), depois caiu até aos $79.000 a meio da semana com o CPI americano em 3,8% a confirmar que não há cortes de juros à vista. Fechou a semana a recuperar para perto dos $78.200 — -1% face ao início da semana.
O Ethereum acompanhou o movimento, fechando perto dos $2.180. Em termos macro, o mercado cripto continua a comportar-se mais como ação tecnológica de risco do que como reserva de valor independente — a correlação com o S&P 500 mantém-se acima dos 80%.
A notícia que vale a pena seguir: a Strategy (antiga MicroStrategy, de Michael Saylor) anunciou esta sexta-feira um plano para recomprar 1.500 milhões de dólares em obrigações convertíveis — e admitiu pela primeira vez que poderá vender Bitcoin para o conseguir. Saylor sempre disse que a sua estratégia era nunca vender. Se a Strategy começar a vender, abre-se uma discussão muito séria sobre a sustentabilidade do modelo de “tesouraria de Bitcoin” que dezenas de empresas adotaram nos últimos dois anos.
🐺 Dica do Lobo
Com a inflação portuguesa em 3,3%, há uma conta simples que todos deviam fazer este fim de semana: o dinheiro parado na conta à ordem está a perder valor a olhos vistos.
Imagina que tens 5.000 euros parados na conta. Daqui a um ano, com inflação a 3,3%, esses 5.000 euros vão comprar o equivalente a 4.835 euros de hoje. Perdeste 165 euros sem mover um dedo — só porque deixaste o dinheiro a dormir.
O Banco de Portugal divulgou esta semana que a taxa média dos novos depósitos a prazo de particulares está em apenas 1,42%. Ou seja: mesmo num depósito a prazo “normal” estás a perder cerca de 1,9% ao ano em poder de compra. As alternativas que valem a pena olhar:
- Certificados de Aforro Série F: rendem em torno de 2,5% no primeiro ano, com a taxa indexada à Euribor 3M. Sem comissões, sem IRS na fonte (só pagas na altura do resgate) e podes levantar a qualquer momento após 3 meses
- Depósitos a prazo de bancos digitais ou de bancos online: alguns oferecem 2,2-2,5% TANB para novos clientes, sem a “fidelização” dos bancos tradicionais
- ETFs de obrigações de curto prazo: para quem tem ISA ou conta de investimento, podem render acima dos 2% com liquidez praticamente diária
- Para fundo de emergência (3-6 meses de despesas): mantém metade num produto líquido e a outra metade em algo que renda — não precisas de ter tudo na conta à ordem
Atenção: isto não é conselho de investimento. É contas de aritmética. O dinheiro parado a 0% perde sempre para a inflação. A questão é quanto.
🔢 Número da Semana
3,3% — a inflação portuguesa em abril, o nível mais alto desde setembro de 2023. Para pôr em perspetiva: estamos a falar de um aumento de 0,6 pontos percentuais num único mês, depois de meses seguidos perto dos 2%. A guerra no Médio Oriente e o bloqueio do Estreito de Ormuz estão a empurrar a inflação para cima em toda a Europa, e Portugal não é exceção. O BCE projetava 2,8% para 2026 — esse número parece agora otimista.
🎯 O que ficar a olhar na próxima semana
- Quarta, 20 maio: resultados da Nvidia — o termómetro mais importante do hype da IA
- Quinta, 21 maio: ata da última reunião do BCE
- Toda a semana: primeiras declarações de Kevin Warsh enquanto presidente em funções da Fed
- Em Portugal: evolução do dossier laboral (UGT tem 15 dias para apresentar contraproposta) e atualização dos preços dos combustíveis
Até para a semana. Mantém-te informado, mantém-te paciente — e cuidado com o dinheiro parado.
— O Lobo das Finanças