Briefing da Semana #005 — 4 a 10 de Maio de 2026 (Ormuz outra vez fechado, Porto aprova transportes gratuitos, inflação em PT salta para 3,36%, Powell faz história na Fed)
Foi uma semana de cabeça-fria. Estreito de Ormuz voltou a fechar para não dizer nunca mais. Wall Street ignorou e bateu novos recordes. Em Portugal, a inflação saltou para 3,36% (máximo desde 2023) e o Porto aprovou transportes gratuitos para toda a Área Metropolitana. Lá fora, nos EUA, a Fed prepara-se para uma transição histórica: pela primeira vez em 78 anos, vão ter dois “Chairs” no mesmo board. Vamos lá.
📊 Mercados em Números
| Indicador | Valor (08/05) | Semana |
|---|---|---|
| S&P 500 | 7.398,93 | +2,33% |
| Nasdaq | 26.247,08 | +4,50% |
| Dow Jones | 49.609,16 | +0,02% |
| Brent | $101,29 | -6,4% |
| WTI | $95,42 | -6,4% |
| Bitcoin | ~$80.350 | +3,5% |
| Euribor 3M | 2,234% | +0,03 pp |
| Euribor 6M | 2,472% | -0,09 pp |
| Euribor 12M | 2,708% | -0,18 pp |
O resumo: apesar do Ormuz outra vez bloqueado, das tarifas de Trump à UE e da inflação a apertar, os mercados americanos fecharam a semana em recordes históricos. Nasdaq +4,5% — uma das melhores semanas do ano. O motor: resultados fortes do setor tech (AMD a brilhar, Samsung a passar $1 trilião pela primeira vez) e payroll de abril acima do esperado (115 mil empregos vs 62 mil estimados).
🇵🇹 Portugal em Foco
Inflação dispara para 3,36% em abril — máximo desde setembro de 2023
O INE confirmou esta semana o que já se cheirava: a inflação homóloga em Portugal saltou de 2,7% (março) para 3,36% em abril. É o ritmo mais alto de subida de preços em 19 meses.
O culpado óbvio é o petróleo. Com o Estreito de Ormuz fechado desde fevereiro, o Brent saltou de €70 pré-guerra para mais de €100 — uma subida superior a 40%. E o impacto na bomba já se sente: combustíveis em Portugal subiram vertiginosamente esta semana, com o ISP a não conseguir absorver totalmente o choque internacional.
O que isto significa para ti:
- Renda: já subiu 2,24% em janeiro, mas atualizações de meio do ano (com inflação maior) podem ser piores
- Crédito habitação: Euribor segue lateral mas mercado já antecipa subida na próxima reunião do BCE (10-11 junho)
- Combustível: previsões para a próxima semana apontam para nova subida
Para perceberes o impacto real no teu bolso, usa o nosso Simulador de Crédito Habitação e, se já tens crédito, vê na calculadora Euribor como cada décima conta.
Porto aprova transportes públicos gratuitos para toda a Área Metropolitana
Foi a notícia portuguesa da semana e aconteceu na noite de segunda-feira (04/05): a Assembleia Municipal do Porto aprovou a proposta para tornar os transportes públicos gratuitos para os residentes do concelho do Porto em toda a Área Metropolitana (AMP).
Os números:
- Custo anual estimado: €20,5 milhões (€10,25M em 2026, €18,7M em 2027, €1,8M em 2028)
- Beneficiários: ~59.381 utilizadores (23,5% dos 252.687 residentes)
- Mecanismo: título tarifário integrado associado ao Cartão Porto., equivalente ao passe Andante metropolitano
- Para quem: portuenses com mais de 23 anos (jovens até 23 já têm passes nacionais grátis)
- Início pleno: 1 de janeiro de 2027, mas o executivo de Pedro Duarte (PSD/CDS-PP/IL) quer antecipar para o verão de 2026
- Contrato com TMP: produz efeitos a 1 julho 2026 (sujeito a visto do Tribunal de Contas)
A votação dividiu o hemiciclo: aprovado com voto contra do Chega e abstenção da CDU e do grupo “Filipe Araújo: Fazer à Porto”. Pedro Duarte reconheceu que a medida seria mais eficaz se todos os municípios da AMP aderissem, mas mesmo assim acredita que pode promover “uma mudança de paradigma”.
É um passo simbólico para Portugal — Lisboa há muito tem regimes parciais de gratuidade, mas o Porto avança agora com cobertura metropolitana plena. É das primeiras grandes cidades europeias a fazê-lo desta forma. Para os portuenses, são centenas de euros de poupança por ano — o passe Andante metropolitano custa cerca de €40/mês, ou €480/ano por pessoa.
O lobo financeiro nisto: para uma família de 2 adultos no Porto, isto significa ~€960/ano libertados — aplicar isso na calculadora de juros compostos a 7% durante 30 anos = €97.000.
Casas em Portugal — preços continuam a desafiar a gravidade
Os dados que correram esta semana confirmam o que já sabíamos: o mercado imobiliário português continua a subir mais rápido que os salários. Em 10 anos, os preços quase triplicaram (180% de subida desde 2015). Em 2026, mesmo com Euribor mais alta e inflação a apertar, não há sinais de correção real.
O OE2026 mantém isenção de IMT até €330.539 para jovens até 35 anos na primeira habitação própria. É um alívio mas não resolve o problema estrutural da oferta.
🌍 O Mundo
Estreito de Ormuz volta a fechar — outra vez
Foi a história da semana, e era para ser tudo um falso alarme.
O cessar-fogo de abril que tinha trazido alguma calma ao Médio Oriente desfez-se esta semana. Cronologia:
- Domingo 03/05: Trump diz que vai analisar nova proposta de paz iraniana mas que “não consegue imaginar que seja aceitável”
- Segunda 04/05: Helicópteros americanos AH-64 Apache e MH-60 Sea Hawk destroem seis pequenas embarcações da Guarda Revolucionária iraniana no Estreito. Brent dispara quase 6% para $114, WTI +4% para $106. Wall Street cai (Dow -1,13%)
- Terça 05/05: Trump anuncia “Project Freedom” — operação naval para escoltar embarcações comerciais. WTI cai 4% para $102, mercados recuperam
- Quarta 06/05: Plot twist. Trump suspende temporariamente o Project Freedom, alegando “avanços nas negociações com o Irão”. Brent cai 8,4%, WTI -9,7%
- Quinta-Sexta 07-08/05: Mercados estabilizam com Brent em ~$101 e WTI em ~$95. Mas o Estreito continua efetivamente fechado ao tráfego comercial
A Fitch Ratings projeta que o Brent deverá oscilar entre $100 e $110 entre maio e julho. Mais para a frente vê excesso de oferta. O Jefferies prevê que mesmo com acordo, os preços não voltam aos níveis pré-guerra ($70) — $80 é o “novo normal” para os próximos 6 meses.
Os impactos práticos:
- 70% de redução no tráfego de petroleiros pelo Ormuz (dados de rastreamento)
- Companhias de navegação a redirecionar carga pelo Cabo da Boa Esperança — frete +30%
- OPEP+ comprometeu-se a aumentar produção em 206.000 barris/dia para mitigar
- Refinarias japonesas pediram libertação de reservas estratégicas
Em contexto: a crise de Ormuz já é descrita pela Wikipedia e por Goldman/Barclays como a maior interrupção energética desde a década de 1970. E começou apenas em 28 de fevereiro. Estamos no início de algo, não no fim.
Fed — Powell faz história e fica no Board
Outra semana decisiva para a Federal Reserve, mas esta foi uma surpresa institucional histórica.
Como sabias, Jerome Powell deixa de ser Chair em 15 de maio (próxima sexta-feira). Kevin Warsh, escolhido por Trump, foi aprovado pelo Senate Banking Committee (13-11) e aguarda confirmação plena do Senado esta semana — a confirmação está marcada para o período entre 11 e 15 de maio.
Mas o twist enorme: Powell anunciou que NÃO vai sair do Board. Mantém o seu lugar como governador (com mandato até janeiro 2028), com direito de voto no FOMC. É a primeira vez em 78 anos que isto acontece — a última foi em 1948 com Marriner Eccles.
Razão oficial: Powell quer ficar até a investigação ao projeto de renovação ($2,5B) da sede da Fed estar “verdadeiramente terminada com transparência e finalidade”. Tradução política: protege a independência do Fed contra pressões da Casa Branca.
Trump reagiu como esperado, no Truth Social: “Jerome ‘Too Late’ Powell quer ficar na Fed porque não consegue arranjar emprego em mais lado nenhum — ninguém o quer.”
Para Warsh, é uma faca de dois gumes. Por um lado, terá um “ex-Chair” no Board que pode ser usado como punching bag de Trump. Por outro, terá dificuldade real em conseguir cortes de juros agressivos. Christopher Hodge (Natixis): “Warsh está em posição infeliz, sem culpa nenhuma sua, de ser provavelmente o Chair menos influente em muito tempo. Vai ter dificuldade real em convencer os outros membros do FOMC a cortar taxas rapidamente.”
O efeito imediato: o ‘corta agora!’ de Trump fica mais difícil de impor. O mercado já reagiu — projeções dão a Fed a manter taxas estáveis até final de 2026.
Tarifas Trump-UE — agora 25% sobre carros
No início da semana, Trump ameaçou subir as tarifas sobre carros e camiões europeus de 15% para 25%, alegando incumprimento do acordo comercial pela UE. Bolsas europeias caíram (DAX -1,2%, CAC -1,7%) na segunda-feira.
Para Portugal, o impacto é mais económico que político: o Banco de Portugal estima que as tarifas de Trump vão tirar -0,4 pontos percentuais ao PIB em 2026. Não é o fim do mundo, mas combinado com o choque do petróleo, a economia portuguesa terá mais um vento contrário.
🏠 Habitação
A semana foi pesada para quem tem crédito habitação:
- Euribor 3M em 2,234% (sexta 08/05) — chegou a 2,248% na quinta, máximo desde abril 2025
- Euribor 6M em 2,472% (a referência da maioria dos contratos em PT, 39% do stock) — desceu 0,09 pp na semana
- Euribor 12M em 2,708% — desceu 0,18 pp na semana
Apesar das descidas a seis e 12 meses, o mercado interbancário continua tenso: a Euribor a 3M tocou esta semana o valor mais alto desde abril de 2025. O Idealista publicou que a procura por crédito habitação em Portugal e na Europa deverá cair nos próximos meses, refletindo o agravamento das condições. O BCE manteve as taxas diretoras a 30 de abril (sétima reunião consecutiva sem mexer), mas o mercado antecipa subida na próxima reunião (10-11 junho).
Para o teu caso: se tens spread negociado há 2-3 anos, pode valer a pena negociar uma transferência. Vê o nosso guia Crédito Habitação — Como Conseguir as Melhores Condições em 2026.
₿ Crypto
Bitcoin teve uma semana razoavelmente positiva apesar do ruído geopolítico:
- Abriu a semana em ~$77.500
- Caiu para $79.150 (mínimo) e subiu até $80.450 (máximo)
- Fechou em ~$80.350 (sexta 08/05)
- Acumula +3,5% na semana
A grande notícia: Tom Lee (Fundstrat) diz no Consensus 2026 em Miami que se BTC fechar maio acima de $76.000, o bear market acaba. O argumento dele: três meses consecutivos de ganhos é o sinal histórico de fim de bear market — nunca falhou. Maio precisa fechar acima de $76K para confirmar.
Lee também disse que o ciclo seguinte vai ser puxado por tokenização e finanças com IA, não pelo halving. E previu que empresas crypto-native vão ultrapassar bancos tradicionais na próxima década.
A CME Group anunciou que vai lançar futuros de volatilidade Bitcoin a partir de 1 de junho, pendente de aprovação regulatória. É a primeira forma fácil de apostar nos swings do BTC sem assumir direção.
Cautela mantém-se: a procura por opções de venda continua elevada, e a volatilidade implícita mensal ronda os 41%. Bom momento para quem está em DCA, com cabeça fria. Não para quem entra em pânico ao primeiro -10%.
📈 Tech
Semana brutal para tech:
- Samsung ultrapassou $1 trilião em market cap pela primeira vez. Ações dobraram em 2026
- AMD superou expectativas com forte demanda de IA
- Nvidia fechou parceria de $2,1 mil milhões com a IREN — vai comprar 30 milhões de ações a $70 cada em troca de serviços de cloud
- Apple manteve-se firme, com rumores de conversações com Samsung e Intel sobre produção de processadores
- Setor tecnologia liderou ganhos no S&P 500 (+2,74% só na sexta)
O contraste com o que aconteceu na semana é fascinante: uma guerra real no Médio Oriente, tarifas a subir, inflação a apertar — e os mercados a fechar em recordes históricos impulsionados por IA. Lê isto com atenção: o mercado está claramente a apostar que a IA é o motor económico que sobrepõe-se a tudo o resto.
🔢 Número da Semana
3,36% — a inflação homóloga em Portugal em abril 2026, o ritmo mais alto desde setembro de 2023. Em 6 meses subiu de 1,9% (janeiro) para 3,36% (abril). O motor é o petróleo, mas a inflação core (excluindo energia) também acelerou. O bolso português já sente.
🐺 Dica do Lobo
Esta semana há uma lição clara: os mercados não são a economia. Wall Street fechou a semana em recordes, mas em Portugal a inflação subiu, os combustíveis dispararam, a Euribor a 3M está em máximo de mais de um ano e o crédito está mais caro.
O que isto significa para ti?
- Não fiques eufórico com Wall Street. Se tens ETFs globais (VWRP, IWDA), recordes são bons — mas não és resgatado pela bolsa americana se a tua casa subir 50€/mês de prestação.
- Acompanha a Euribor. A reunião do BCE de 10-11 junho pode mudar tudo. Se tens spread alto, é momento para falar com o teu banco.
- Petróleo a $100+ vai durar meses. Aceita: Jefferies fala em $80 como “novo normal” mesmo com acordo. Calcula isto no teu orçamento — combustível +20% face ao início do ano não é temporário.
- Fundo de emergência continua a ser rei. Com inflação a subir e geopolítica volátil, ter 3-6 meses de despesas em Certificados de Aforro continua a ser a defesa mais inteligente que existe.
Cabeça fria. Estratégia clara. Continuar a investir mensalmente. Quem entra em pânico nestas semanas, perde. Quem mantém disciplina, ganha — sempre.
Boa semana, Lobos. Voltamos no próximo briefing.
🐺 O Lobo das Finanças