China ordena à Maersk e à MSC que abandonem os portos do Canal do Panamá
A guerra comercial entre os EUA e a China chegou às águas do Canal do Panamá. As autoridades chinesas exigiram que a Maersk e a MSC abandonassem imediatamente os portos do Canal cuja gestão lhes foi temporariamente entregue após a rescisão da concessão à CK Hutchison, empresa sediada em Hong Kong. A notícia foi avançada pelo Financial Times com base em fontes anónimas. Numa semana marcada por tensões nas rotas marítimas globais, também o Estreito de Ormuz reabriu ao comércio internacional com impacto imediato no preço do petróleo.
Como chegámos aqui
Em janeiro de 2026, o Supremo Tribunal do Panamá retirou à Panama Ports Company — subsidiária da CK Hutchison — a concessão que detinha desde 1997 sobre os portos de Balboa (Pacífico) e Cristóbal (Atlântico). A gestão foi transferida temporariamente para a APM Terminals, filial da Maersk, e para a TIL, do grupo MSC, por um período máximo de 18 meses enquanto decorre um novo concurso público.
Esta decisão surgiu num contexto altamente politizado: pressões crescentes dos EUA sobre o Panamá para travar a influência chinesa na via aquática, e a tentativa da CK Hutchison de vender um conjunto de 43 portos em 23 países a um consórcio liderado pela BlackRock. Pequim reagiu com dureza.
A exigência de Pequim
Funcionários da Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma da China — o principal organismo de planeamento económico do país — convocaram executivos seniores da Maersk e da MSC e pediram-lhes que não participassem em atividades ilegais que prejudicam os interesses de empresas chinesas e que respeitassem a ética comercial e as leis internacionais. O CEO da Maersk, Vincent Clerc, participou pessoalmente numa reunião em Pequim a 20 de março. O presidente da MSC, Diego Aponte, optou pela correspondência escrita.
O paradoxo de Pequim
Aqui está o grande problema para a China: se a Maersk e a MSC cederem à pressão e saírem, a gestão dos portos passará muito provavelmente para empresas americanas — um cenário que Pequim considera ainda mais indesejável. As próprias transportadoras europeias explicaram que as concessões provisórias são necessárias para que o comércio continue a fluir pelo Canal sem interrupções.
A China colocou-se assim numa posição contraditória: ao pressionar as empresas europeias, arrisca acelerar exatamente o resultado que tenta evitar — a consolidação da influência americana no Canal do Panamá.
O que está verdadeiramente em jogo
O Canal do Panamá não é apenas uma rota comercial. É um símbolo de poder geopolítico. Trump já ameaçou recuperar o controlo americano sobre a via aquática. A China quer impedir que isso aconteça. E no meio deste braço de ferro, estão duas empresas europeias a tentar simplesmente fazer o seu trabalho.
Num mundo onde o comércio global é cada vez mais uma extensão da política, o Canal do Panamá tornou-se o novo palco da disputa entre as duas maiores potências do planeta.
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